Figurinista paraibano transforma elementos da natureza em figurinos que unem tecnologia, trabalho manual e dramaturgia para o espetáculo da LightWire no Rock in Rio 2026.
Durante anos, Toninho Miranda acompanhou de longe o trabalho da LightWire. A empresa, conhecida por desenvolver tecnologia vestível com LED para espetáculos, já fazia parte do imaginário profissional do figurinista paraibano, que queria encontrar uma maneira de trabalhar com aquele universo. A oportunidade, no entanto, não chegou inicialmente como um grande convite.
Em 2025, Toninho foi chamado para trabalhar como camareiro em uma produção da companhia. O cachê era simbólico, mas, para ele, a oportunidade tinha outro valor: estar perto da equipe, entender o funcionamento dos figurinos e mostrar, na prática, o que poderia fazer.
Foi durante um ensaio geral que percebeu algumas dificuldades relacionadas à maneira como os figurinos eram vestidos e utilizados pelos artistas. No intervalo para o almoço, pegou um guardanapo e começou a desenhar possíveis soluções.
“Eu queria trabalhar com eles. Então, quando surgiu essa oportunidade de ser camareiro, mesmo com um valor simbólico, eu pensei: vou. Porque eu queria estar perto, queria entender, queria conhecer”, conta Toninho ao Moda In Parahyba.
O desenho feito de maneira improvisada acabou se tornando um ponto de partida. Alguns meses depois, a LightWire entrou em contato novamente, dessa vez para que ele participasse da reformulação de figurinos como o New Dress e o Pixelware. Entre janeiro e março de 2026, Toninho trabalhou na produção de dezenas de bases pretas e brancas e de peças que precisavam acomodar baterias e componentes elétricos sem comprometer a mobilidade dos artistas.
Era o início de uma parceria que ganharia uma dimensão muito maior.
Quando a tecnologia encontra o figurino
O trabalho de Toninho no ECCO não está relacionado à criação da tecnologia LED utilizada pela LightWire. A tecnologia é desenvolvida pela própria empresa. Sua contribuição acontece em outro lugar: na construção da relação entre tecnologia, corpo, roupa e personagem.
Para ele, o desafio era fazer com que os elementos tecnológicos não parecessem apenas equipamentos incorporados ao figurino, mas parte da linguagem visual e dramatúrgica do espetáculo.
“Eu não inventei a tecnologia. A tecnologia é da LightWire. O que eu fiz foi tornar essa tecnologia mais funcional no corpo, principalmente para o Rock in Rio, e trazer uma visão mais artística. Eu dei alma a personagens que já tinham o LED e a dramaturgia”, explica.
Essa relação é especialmente importante no ECCO, espetáculo concebido a partir de uma experiência sensorial em que luz, música, movimento, tecnologia e corpo se encontram. Em um palco que também trabalha com o blackout, o figurino precisa funcionar em dois momentos distintos: quando a luz está acesa e quando os LEDs passam a construir a imagem dos personagens. Toninho decidiu, então, que as roupas precisavam ser bonitas nas duas situações.
“Eu queria que o figurino fosse bonito de dia e bonito no escuro. Porque no backstage você olha e ele já é bonito. Quando entra o LED, o trabalho artesanal junto com a tecnologia deixa ele duas vezes mais bonito.” Foi a partir dessa premissa que começou a desenvolver os figurinos dos personagens inspirados em diferentes manifestações da natureza.
Vestir o fogo, a terra e o ar
O processo começou ainda em março, quando Toninho foi convidado para integrar a equipe responsável pelo ECCO depois de uma conversa com integrantes da LightWire. A partir daí, iniciou uma pesquisa visual sobre natureza, formas, texturas e movimento.
Mais do que desenhar roupas, ele precisava encontrar uma maneira de transformar conceitos abstratos em matéria.
“Como é que eu transformaria o ar em roupa? Uma raiz em roupa? O fogo em uma roupa?”, lembra.
A resposta veio por meio de experimentação. Para o guitarrista, associado ao fogo, Toninho criou uma imagem inspirada em uma serpente. A ideia exigia uma textura que lembrasse pele de cobra, mas encontrar o material adequado se mostrou mais difícil do que parecia. Depois de procurar fornecedores, inclusive em São Paulo, ele chegou a desenvolver um tecido exclusivo de aproximadamente 50 metros.
O resultado foi aplicado a um figurino preto, de acabamento fosco e com elasticidade, construído para vestir o artista como uma espécie de rockstar envolto pela imagem de uma serpente de fogo.
Já para o baixista, ligado à terra, a referência eram as raízes. O processo envolveu testes exaustivos sobre peças de jeans. Toninho chegou a trabalhar com dez fabricantes diferentes e oito tipos de água sanitária, variando concentrações, aplicações e maneiras de produzir o efeito. Foram dias de experimentação até chegar ao resultado desejado. Para representar o ar, o desafio era outro: criar movimento. A solução veio por meio de fibras aplicadas uma a uma sobre o tecido. O objetivo era que o figurino reagisse ao deslocamento do corpo e ao movimento do palco.
Mas nem tudo funcionou de primeira,durante os ensaios na Cidade do Rock, duas versões do figurino não apresentaram o resultado esperado. Toninho precisou desenvolver uma nova peça entre uma noite e outra, já dentro do espaço do festival. A terceira versão finalmente encontrou o movimento que ele buscava.
No ECCO, errar não significava interromper o processo. Era parte dele.
Um laboratório dentro de casa
Embora o espetáculo tenha uma grande estrutura por trás, Toninho optou por manter o processo de criação bastante concentrado em suas próprias mãos. Durante quase seis meses, trabalhou praticamente sozinho no desenvolvimento dos figurinos. A escolha foi intencional. “Eu precisava ter liberdade para errar. Eu queria poder testar, desmontar, refazer e descobrir o que funcionava.”
Seu apartamento se transformou em uma espécie de laboratório. Tecidos, materiais, tintas, peças de roupa e protótipos passaram a ocupar o espaço doméstico. Algumas pessoas contribuíram pontualmente: seu companheiro e sócio, Valsini, ajudou na busca por materiais, enquanto uma costureira e outros profissionais foram acionados quando alguma etapa exigia apoio específico. Mas a condução permaneceu nas mãos do próprio figurinista.
A personagem da Mãe Natureza, por exemplo, exigiu cerca de 25 dias de trabalho por conta da quantidade de microdetalhes envolvidos. Ao todo, Toninho desenvolveu mais de 20 croquis e cada figurino passou por diferentes versões até chegar ao resultado final.
A lógica era menos industrial e mais próxima de um processo artesanal de descoberta.
A Paraíba também está no figurino
É nesse aspecto que a trajetória de Toninho encontra de maneira mais evidente a sua origem.
Nascido em Campina Grande, ele construiu sua formação entre o design de moda, a modelagem, o figurino, a caracterização e as artes cênicas. Mas sua relação com o fazer manual também está ligada à cultura da cidade onde cresceu.
No processo do ECCO, materiais e técnicas artesanais aparecem como ferramentas de criação. Pintura manual, manipulação de tecidos, construção de texturas, aplicação de materiais e experimentações pouco convencionais fazem parte da linguagem desenvolvida para o espetáculo.
Um dos figurinos dos músicos, por exemplo, recebeu uma pintura inspirada em grafismos de povos indígenas brasileiros. Toninho testou diferentes tipos de tinta até encontrar uma versão fluorescente que funcionasse sob a iluminação do palco. Em outro figurino, utilizou água sanitária para criar visualmente raízes sobre o jeans. Essa disposição para experimentar materiais também acompanha sua trajetória profissional. Ele já trabalhou com arame, acetato, tela de galinheiro e outros materiais que fogem do repertório tradicional da moda. “Eu me considero um engenheiro de moda”, diz.
A comparação não é gratuita. Para Toninho, técnicas de modelagem, barbatanas, costuras e estruturas funcionam como elementos de sustentação do corpo, quase como vigas e fundações de uma construção. É justamente essa mistura entre técnica e invenção que ele leva para o figurino.
De Campina Grande para um dos maiores palcos do país
A relação de Toninho com a arte começou de maneira pouco convencional. Até os 17 anos, ele se descreve como um jovem comum de um bairro periférico de Campina Grande, sem uma formação artística dentro de casa. Sua mãe era empregada doméstica e seu pai trabalhava como técnico veterinário em uma farmácia veterinária na feira da cidade.
O teatro entrou em sua vida quase por acaso. A primeira experiência foi como ator, sem que ele sequer tivesse assistido anteriormente a uma peça. A partir dali, a atuação abriu caminho para outras possibilidades até que o figurino se tornasse uma das principais linguagens de sua carreira.
“Eu acho que a arte me escolheu.”
Hoje, o trabalho de Toninho atravessa diferentes áreas. Designer de moda, figurinista, modelista, aderecista, ator, professor e consultor, ele já passou por produções ligadas ao teatro musical, televisão, publicidade e grandes eventos. Entre os trabalhos anteriores estão projetos para Broadway Dreams, Nickelodeon, Warner Bros. Pictures, Circo do Tirullipa, além de produções como The Town e Rock in Rio, onde já havia atuado anteriormente em funções de apoio e camarim.
A edição de 2026 representa, portanto, uma mudança importante nessa trajetória: desta vez, ele chega ao Rock in Rio como responsável por uma criação autoral. E essa diferença importa. “É um sonho que está se tornando realidade.”
O que vem depois do Rock in Rio
A participação no ECCO já começa a produzir novos desdobramentos. Durante o processo de entrevista, Toninho revelou ao Moda In Parahyba que a LightWire já fechou com ele um novo projeto: um espetáculo natalino em Gramado, realizado dentro de um parque.
Ao mesmo tempo, ele conta que precisou recusar outros trabalhos no período que antecedeu o Rock in Rio por conta da dedicação exigida pelo projeto.
Para o figurinista, porém, o festival não representa um ponto de chegada. É uma porta. Seu desejo agora é continuar trabalhando com a Rock World, empresa responsável pela criação e execução de projetos como o Rock in Rio e The Town, e participar de outras produções da companhia.
“Eu realmente acho, eu sinto e eu sei que esse projeto vai me abrir muitas portas.”
No palco do ECCO, essas portas aparecem em forma de luz. Mas, antes que o LED acenda, existe uma longa cadeia de decisões invisíveis ao público: um tecido que não existia e precisou ser criado, dezenas de testes de jeans, tintas fluorescentes, fibras costuradas uma a uma, peças desmontadas e refeitas, croquis que ganharam novas versões e horas de trabalho dentro de um apartamento transformado em ateliê.
É ali que está uma parte importante da história de Toninho Miranda.Não apenas na dimensão do palco que agora ocupa, mas no caminho percorrido até chegar a ele.
De Campina Grande ao Rock in Rio, seu figurino carrega tecnologia, mas também carrega matéria. Carrega pesquisa, mas também tentativa e erro. E, sobretudo, carrega uma maneira particular de fazer moda: com técnica suficiente para sustentar a criação e liberdade suficiente para deixá-la acontecer.