Com um investimento inicial médio de R$30 mil e margem de lucro que pode chegar a 70%, o brechó deixou de ser apenas algo visto como de bairro para se firmar como um dos modelos de negócio mais rentáveis do varejo brasileiro. Neste ano, o setor gerou cerca de 343 mil empregos formais no país. Em João Pessoa, esse crescimento também acompanha e aparece nas araras e até em vitrines digitais. Mas, diferentemente do panorama nacional, ainda não existe ao certo dados de quantos brechós chegaram a movimentar a economia da cidade. Não estamos falando sobre o brechó apenas como uma tendência de moda. Mas, sim como uma investigação de algo que, antes era visto como um mercado informal, e agora virou uma realidade de negócios e o que isso significa para os empreendedores desse setor na Paraíba.
O tamanho do mercado nacional
Os números por trás desse crescimento nos ajudam a entender o porquê desse setor deixar de ser tratado como algo nichado. O Brasil tem hoje 118.778 brechós ativos, um crescimento de 30,97% nos últimos 5 anos, incluindo até uma alta de aproximadamente 11,08% durante a pandemia do Covid-19 (SEBRAE/CFA). Esse segmento já representa 0,49% das empresas ativas no país, sendo uma proporção de um brechó para cada 1.730 habitantes (dados do SEBRAE).
Falando sobre estrutura, a maioria desses negócios são formalizados como microempreendedores individuais: 78% são MEIs, 21% micro e pequenas empresas, e apenas 1% médias e grandes empresas, com 91% dos brechós sendo enquadrados no regime do Simples Nacional. E visto que o investimento inicial médio para abrir um brechó é de aproximadamente R$30 mil, com potencial de lucro de até 70%, esse é um dos fatores que explicam o porquê desse setor vir se tornando cada vez mais atrativo aos olhos dos empreendedores individuais.
No mercado de trabalho, o número de empregos formais no comércio de vestuário de segunda mão dobrou entre 2020 e 2024 (+115%), um crescimento mais rápido do que qualquer outro ramo do varejo no Brasil. A expectativa é, segundo uma reportagem da Folha de S. Paulo, que o mercado de brechós brasileiro supere o mercado do fast fashion até 2030.
O ponto cego da Paraíba
Porém, esse cenário nacional não possui um equivalente estadual. Não há, até o momento, um levantamento consolidado sobre quantos brechós temos ativos na Paraíba, nem sobre o quanto esse mercado movimenta financeiramente no estado. Nem pelo Sebrae-PB, nem pela Junta Comercial da Paraíba (Jucep), nem pela Receita Federal filtrada por unidade federativa. Enquanto estados como Minas Gerais já possuem estudos setoriais dedicados a esse tema, a Paraíba ainda depende de formas indiretas, como produção acadêmica local, para entender a dimensão desse mercado dentro de seu próprio território.
Na ausência de estatística oficial, é a produção acadêmica local que acaba preenchendo essa lacuna. Dois trabalhos de conclusão de curso do IFPB, ambos do curso de Administração do campus de João Pessoa, investigaram diretamente o setor na cidade.
O primeiro, sobre estratégias de marketing em brechós de João Pessoa, analisou cinco negócios da capital, entre eles o Sunflower, e concluiu que o Instagram funciona como principal canal de comunicação do setor, sendo importante para conectar os empreendedores ao público.
O segundo, e também mais recente, analisou a moda circular como estratégia competitiva em três brechós geridos por mulheres na cidade. A conclusão foi: o comércio de artigos de segunda mão “deixou de estar associado exclusivamente à informalidade, consolidando-se como modelo de negócio estratégico, sustentável e economicamente rentável”, evidenciando também um paradoxo relevante: apesar do discurso de sustentabilidade estar presente na essência desses negócios, a decisão de compra do consumidor local continua sendo guiada, principalmente, por custo-benefício e exclusividade das peças, não necessariamente por consciência ambiental.
Vozes do mercado local
Precificação
A precificação, nas experiências ouvidas, está longe do improviso. No Sunflower Garimpos, a fundadora Vanessa dos Santos calibra os valores a partir de pesquisa direta de mercado: “eu gosto de pelo menos […] duas vezes em cada semestre, ir em loja de departamento e estudar o valor que tá no mercado”, explica. A lógica pode ser comparada, segundo ela: uma peça vendida a R$50 no brechó pode custar entre R$150 e R$200 numa loja de departamento, o que justifica o valor cobrado mesmo quando o cliente compara com preços de bazar.
Já no Reuse Bazar, a precificação segue três critérios centrais, segundo Maria Vitória Lima, funcionária do Reuse: marca, estado de conservação e tamanho da peça, o último sendo relevante porque existe variação real de demanda entre as numerações. A loja realiza também pesquisa de mercado prévia antes de chegar a uma “média de preço coerente com o que já está sendo praticado.”
O maior desafio
Curiosamente, o maior desafio apontado pelas entrevistadas não é algo operacional, e sim comportamental. Para Maria Vitória, o maior desafio está na captação de clientes, por existir um tipo de barreira mental: “muitas pessoas não têm a mentalidade de consumir nesse formato”. Segundo ela, é rotineiro escutar clientes dizendo que é a primeira vez que compram em brechó, uma frase que, para Maria Vitória, nunca se ouve em uma loja tradicional. “O desafio real do brechó não é só vender: é converter uma mentalidade.”
Vanessa, do Sunflower, também percebe isso ao falar sobre manter a competitividade do negócio, pois o esforço não está apenas na curadoria das peças, mas em sustentar presença de marketing constante para criar conexão com o público em um mercado digital que muda com frequência.
Perfil do consumidor
Um dado que quebra a expectativa mais comum sobre quem compra em brechó. Ainda que o mercado de segunda mão seja muitas vezes associado à geração Z, a maioria da clientela da Reuse Bazar tem entre 30 e 40 anos ou mais, segundo Maria Vitória. Um público que a empreendedora descreve como uma barreira conhecida por ser difícil de converter, mas que hoje já responde por boa parte das vendas do negócio.
Chegada das franquias
Enquanto negócios independentes como o Sunflower e o Reuse disputam espaço digital com curadoria própria, redes nacionais já apostam em João Pessoa. A Soul Consciente, que se apresenta como o maior brechó da Paraíba, opera na cidade como uma franquia master. A Peça Rara, descrita como a maior rede de brechós do Brasil, também mantém unidade franqueada na capital paraibana, atuando com moda circular voltada aos públicos feminino, masculino e infantil.
A presença dessas franquias se mostra como um indicador de mercado: redes avaliam viabilidade financeira e potencial de demanda antes de investir, o que sugere que o mercado pessoense de segunda mão já é considerado maduro o suficiente para sustentar operações de maior escala, além dos negócios independentes que dominaram o setor até aqui.
Nenhuma das fontes ouvidas, pelo menos as microempreendedoras, chegou a um número fechado de faturamento, e essa lacuna, ainda que pequena, registra um padrão maior. Se o mercado nacional de brechós já é mapeado por levantamentos como os do Sebrae e do CFA, a ponta local desse mesmo mercado ainda opera sem dados consolidados em nível de negócio individual.
O que os números nacionais, a produção acadêmica e as próprias empreendedoras ouvidas em João Pessoa indicam, no entanto, é convergente: o brechó deixou de ser alternativa de consumo circunstancial para se tornar modelo de negócio estruturado, com estudo de preços, gestão de custos e disputa por competitividade, inclusive com a chegada de redes nacionais à cidade. O que falta, agora, é que o retrato estatístico da Paraíba acompanhe o que já acontece no varejo.