Entre centenas de instituições de moda espalhadas pelo Brasil, apenas oito chegam à final do Concurso dos Novos e a equipe do Centro Universitário de João Pessoa (Unipê) é uma delas. O grupo é formado por Ana Clara Clemente, Ana Paula Rosales, Atlas Gabriel, Elaine Elisa, Hilda Pires e Marggory Ellen, graduandos em Design de Moda, além da professora orientadora, Dyana Barreto. Juntos, eles desenvolveram a coleção TYBYRA, que foi desfilada dia 10 de junho no Dragão Fashion Brasil 2026, em Fortaleza-CE.
Realizado todo ano na capital cearense desde 1999, o Dragão Fashion Brasi (DFB)l é um dos principais festivais de moda autoral da América Latina, reunindo desfiles, palestras e economia criativa. Na sua programação, o Concurso dos Novos é voltado para estudantes de moda de todo o país. Cada instituição pode inscrever sua equipe, que desenvolve uma coleção a partir do tema do edital. De todas as submissões avaliadas por uma comissão na fase classificatória, apenas oito seguem adiante, elas desfilam em Fortaleza, competem por prêmios em dinheiro e ganham a visibilidade que uma plataforma desse porte é capaz de oferecer.
O processo de criação
O ponto de partida foi o tema do edital: “Praia de Iracema, coração e cérebro da Cidade Dragão”. A edição de 2026 do DFB Festival conecta a moda autoral às comemorações dos 300 anos de Fortaleza, retornando ao bairro litorâneo onde o próprio festival nasceu. Para a equipe do Unipê, o tema abriu espaço para uma leitura que ia além da praia como paisagem estática, mas como um território em constante transformação, que molda as pessoas que com ele interagem e, por sua vez, é moldado por elas.
No centro desta narrativa estava Tibira do Maranhão, Indígena tupinambá que foi executado no início do século XVII com a autorização de religiosos católicos, por conta de sua orientação sexual, tornando-se o primeiro registro de morte por homofobia no Brasil. Em TYBYRA, a história é reescrita. De memória de violência, ele se desloca para símbolo de força e permanência.
A coleção nasce desse cruzamento entre passado e presente, trabalhando manualidades, texturas e formas para revelar as diversas camadas que existem nas cidades, nos corpos e na própria história. O ponto central é o reconhecimento de que pessoas marginalizadas também transformam os espaços que ocupam, ressignificando territórios marcados por exclusão e apagamento.
A coleção carrega também uma forte influência da cultura ballroom, movimento de resistência e celebração que reúne performance, moda e identidade como formas de afirmação para corpos excluídos, especialmente aqueles que fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+, temática que já havia marcado presença na coleção da equipe do Unipê no ano anterior. Mas a proposta estética, contudo, difere do ano passado. “No ano passado, a proposta era mais artística, este ano, é algo mais comercial”, explica Marggory Ellen, única veterana da equipe. O caráter comercial vem como exigência do próprio edital, e a equipe abraçou essa premissa sem abrir mão do essencial.
“A ideia era que a coleção abraçasse diversos corpos. Independentemente do sexo ou do gênero, queremos que qualquer pessoa se sinta confortável para usar as peças”, afirma Hilda Pires.
Para a orientadora Dyana Barreto, conduzir a equipe nesse processo tem um custo que ela reconhece sem romantizar.
“São muitos dias de reforço além das aulas regulares para que consigamos alcançar o que planejamos”, explica.
O compromisso com o edital é rígido: o que se propõe, precisa ser executado. E é exatamente essa rigidez, segundo ela, que torna as competições de moda uma experiência formativa insubstituível.
Os materiais utilizados
No campo técnico, a aposta mais ousada tem nome e marca registrada: beLEAF™. Trata-se de um biotecido brasileiro desenvolvido a partir de folha de orelha de elefante como alternativa ao couro, sem nenhuma origem animal. A equipe nunca havia trabalhado com esse material antes, o que tornava sua inclusão uma aposta de alto risco.
O beLEAF™ divide espaço na cartela com tecidos fluidos, criando contrastes de textura que reforçam a proposta estética da coleção. O edital exigia o uso de alguma técnica artesanal, e a equipe escolheu o crochê e o macramê, incorporando-os como linguagem visual que ancora TYBYRA em uma tradição manual. Materiais reaproveitados completam o conjunto, em sintonia com o compromisso da equipe com a sustentabilidade.
O histórico e o legado
A Unipê não chega ao DFB sem um histórico. Em 2017, a equipe conquistou o primeiro lugar no Concurso dos Novos e voltou a desfilar entre os finalistas em 2024. Em 2025, subiu ao pódio na terceira posição, resultado que, para os integrantes de 2026, funciona menos como pressão e mais como prova de possibilidade.
Nos últimos anos, estudantes paraibanos vêm chegando à final do maior festival de moda autoral da América Latina, com coleções próprias, criadas e executadas por eles mesmos. A presença se repete, e começa a falar por si.
Dyana Barreto orienta equipes da Unipê para o Dragão Fashion desde 2024 e é o fio condutor entre essas últimas três edições. Ao seu lado, Marggory Ellen é a única veterana do concurso entre os integrantes oficiais de 2026. Da experiência anterior, ela trouxe como lição central para a equipe a atenção redobrada aos prazos; o processo criativo é envolvente, exatamente por isso é preciso manter os pés no chão. Numa equipe em que são os próprios integrantes que realizam a modelagem e a costura das peças, pensar muito e executar pouco não é uma opção. Por isso, para elas, o planejamento criativo e gestão de tempo precisam andar juntos, ou a coleção nunca sai do papel.
Desfilar em Fortaleza com o tema desta coleção carregava um peso que ia além da competição. No dia 10 de junho, TYBYRA subiu à passarela do Concurso dos Novos com um propósito que antecede qualquer resultado: desviar os holofotes da heteronormatividade e trazer outras identidades para o centro da passarela. O pódio não veio, mas a equipe chegou à final entre tantas instituições inscritas e conseguiu transmitir a mensagem da coleção. A Paraíba que chegou ao DFB em 2026 não foi apenas competir, foi com a vontade de contar uma história e com a certeza de que a moda também pode se tornar espaço de luta.