Araruna, cidade de 150 anos encravada no Curimataú paraibano, ganhou nesta sexta um cenário à altura de seus atrativos naturais, o desfile de encerramento da primeira edição paraibana do Mãos da Moda aconteceu no Spazio da Pedra, pousada de onde se vê, ao fundo, a Pedra da Boca. Sob esse pano de fundo, as marcas Carnavália e Morada apresentaram as coleções desenvolvidas ao longo de sete meses em parceria com grupos artesanais da Paraíba.
A plateia reuniu artesãs da Aramê e do Quilombo Pedra D’Água, autoridades, amigos e familiares dos envolvidos no projeto, jornalistas e influenciadores paraibanos convidados pela Riachuelo, patrocinadora do Mãos da Moda através do Riachuelo Lab. O clima era de celebração, depois de meses de trabalho conjunto entre estilistas e artesãs, era a vez de Araruna ver de perto o resultado.
Entre os convidados estava Marianne Morimitsu, influenciadora paraibana convidada pela Riachuelo, para quem o evento foi o primeiro desfile da vida.
“Toda menina que gosta de moda sonha em vivenciar isso um dia. Eu já esperava um espetáculo na passarela, mas o que mais me marcou foi o backstage, ver a quantidade de mãos envolvidas naquele projeto, o carinho no olhar de quem fez as peças e de quem fotografava”, contou.
Para ela, a escolha da Paraíba como palco não foi acidental: “Esse desfile tinha que ser aqui, porque mostra muito da gente, o nosso povo, a nossa cultura, a nossa arte.”
Antes dos looks descerem a passarela, Daniela Falcão, fundadora da Nordestesse e idealizadora do projeto, explicou ao público reunido o que é o Mãos da Moda e por que Araruna foi escolhida para receber esse encontro. “Araruna tem a Pedra da Boca e todas as belezas naturais, e o fato de estar completando os 150 anos também interviu muito nessa nossa vontade de fazer o evento aqui”, disse. Segundo ela, o movimento nasceu da percepção de que “tanto a moda autoral nordestina quanto os saberes artesanais se fortalecem se estiverem juntos” e que as marcas nordestinas que têm feito sucesso em vitrines como o São Paulo Fashion Week são justamente as que carregam as manualidades e tipologias ancestrais da região.
Daniela também destacou o papel da Riachuelo, patrocinadora do projeto desde o início através do Riachuelo Lab, plataforma da marca dedicada a incentivar moda autoral e cultura brasileira, além do apoio do Governo do Estado, da Secretaria de Cultura e do PAP, responsável por identificar os grupos artesanais aptos a participar.
“Esse é o nosso objetivo com o Mãos da Moda: desafiar artesãos e estilistas a criarem juntos. O projeto remunera esses estilistas e esses artesãos, e eles são acompanhados durante todo o processo”, explicou.
A Morada, de Lu Azevedo, abriu o desfile com “Gira”, coleção construída com as labirinteiras do Quilombo Pedra D’Água, em Ingá. Em jeans, rami e linho, o bordado labirinto aparece ora em detalhes de mangas, calças e blazers, ora como protagonista de vestidos inteiramente bordados, ao lado de crochê e miçangas. Quatro looks homenagearam entidades femininas do candomblé e da umbanda, Maria Navalha, Rosa Caveira, Maria Padilha e Oxum.



Em seguida, foi a vez da Carnavalia, marca de Duda Carvalho apresentar a coleção “Trama Delírio”, desenvolvida com a Aramê, associação de cerca de 30 macramistas de Araruna. A coleção transforma o macramê tradicional em experimentação têxtil contemporânea – em alguns looks, o trabalho artesanal levou até 65 horas. Inspirada na obra do artista pernambucano Tunga, a coleção também levou o macramê para os calçados, criados em parceria com a marca paraibana Erregê. “As tranças, cordas, redes e nós do trabalho de Tunga serviram de guia para uma investigação sobre entrelaçamento, transformação e construção coletiva – temas que encontraram ressonância natural na prática do macramê desenvolvida pelas artesãs da Aramê”, contou Duda Carvalho.



Entre uma passada e outra na passarela montada com a Pedra da Boca ao fundo, discursaram também o prefeito de Araruna, Availdo Azevedo, e a primeira-dama da Paraíba, Camila Mariz. O prefeito lembrou que conhece o trabalho das macramistas locais “desde o distante ano de 2007, 2008” e destacou o valor de ver esse saber, antes desenvolvido de forma empírica, ganhar espaço em desfiles e projetos como o Mãos da Moda. Camila Mariz reforçou a importância do reconhecimento público ao trabalho artesanal, citando o Salão do Artesanato Paraibano como exemplo de política pública que deu certo.
“Isso é muito bom, mas se não existisse o artesão, se não existisse a sociedade que abraça, não funcionaria. O Salão do Artesanato Paraibano é hoje uma política pública que funciona. Por que funciona? Porque as pessoas abraçaram”, afirmou.
Pela Riachuelo, Patrícia Vieira falou sobre o que a marca vê no projeto. “Impulsionar a moda autoral tem tudo a ver com a nossa marca, que a gente diz que é incrivelmente Brasil. Poder mostrar um pouco mais desse Brasil tão enorme, que tem coisas tão lindas como esse lugar que eu não conhecia, e apresentar essa moda para todo mundo, é incrível”, disse. Ela adiantou que a marca já pensa nos próximos passos do projeto: “A gente quer repetir o que já fez, ampliar o próximo ciclo para outras regiões, mais do Nordeste, mais do Centro-Oeste, e continuar apresentando esse trabalho lindo para o Brasil inteiro.” Campina Grande já é cotada como uma das próximas paradas, com artesãos e estilistas locais em mobilização para uma futura edição.
Com a Bahia também contemplada nesta primeira edição, as coleções baianas do Mãos da Moda já haviam sido apresentadas no Dragão Fashion Brasil, em Fortaleza, o projeto criado pela Nordestesse fecha seu primeiro ciclo reafirmando que moda autoral e artesanato nordestino, quando caminham juntos, também sabem ocupar uma passarela montada em plena Pedra da Boca.