“Macramê punk.” Foi assim que Daniela Falcão, fundadora da Nordestesse, resumiu a Trama Delírio no dia 17 de julho, em Araruna, no desfile que encerrou o primeiro ciclo do Mãos da Moda – projeto de cocriação entre marcas autorais e grupos artesanais do Nordeste, resultado da parceria entre Nordestesse e Riachuelo, com apoio do Governo da Paraíba. A definição cabe bem numa coleção que passou primeiro pela passarela do Dragão Fashion Brasil, em Fortaleza, em junho, antes de voltar para casa: para o Curimatú paraibano, a poucos metros do Parque Estadual Pedra da Boca, onde vive a associação de macramistas que assina, ao lado da Carnavália, cada um dos doze looks da coleção.
Não é a primeira vez que a Carnavália mistura fantasia de carnaval, ancestralidade nordestina e alfaiataria de ateliê. Mas a Trama Delírio marca um deslocamento: pela primeira vez, o macramê vira protagonista estrutural da coleção. É um gesto que dialoga diretamente com um problema antigo da moda paraibana: a dificuldade histórica de reconhecer produção manual como autoria, e não apenas como curiosidade regional. Ao colocar o nó como elemento central de construção – e não como acabamento decorativo – , a Carnavália testa até onde uma técnica pode carregar sozinha uma coleção inteira.
A inspiração declarada é o artista pernambucano Tunga (1952–2016), cujas tranças, cordas, redes e corpos suspensos atravessam o texto de apresentação da coleção como uma epifania quase literal:
“Eu estava dentro do fantástico universo de Tunga e por ele fui atravessada, caí na rede como quem cai num encantamento e cheguei até aqui, o nascimento da coleção Trama Delírio”, escreve a diretora criativa Duda Carvalho.
Da obra de Tunga, a coleção herda o ponto “DNA” e as tranças como fio condutor entre as peças, e também a ideia, cara ao artista, de que uma trança é o encontro de três caminhos que, ao se unirem, formam um destino só. Aqui, os três caminhos são a Carnavália, a Aramê e o próprio repertório plástico de Tunga.
O material mais simbólico da coleção nem é o macramê em si, mas o tule estampado que já é assinatura da marca, para esta edição, o rapport impresso no tecido nasceu de um manto de macramê bordado com pedrarias e texturas por todas as artesãs da associação, fotografado em estúdio e só depois transformado em estampa, uma peça de artesanato que vira imagem que vira tecido industrial, num loop que resume bem o que a coleção está tentando dizer sobre autoria e reprodução. A paleta parte do vermelho e segue por mostarda, cobre, dourado e bordô, com um respiro de azul royal, até desembocar no par cru preto e branco. Entre os materiais, além do macramê e do tule, estão o crepe fino branco, malhas hiper soft e peach e os barbantes tradicionais da técnica, fornecidos por parceiros do projeto.

Antes de ser um vestido de passarela, o Elba foi acidente de processo. Foi a partir dele que nasceu depois o vestido desenvolvido para Elba Ramalho vestir no São João de 2026, o que faz da peça da Trama Delírio uma das criações mais emblemáticas da marca. A silhueta surgiu quando um corpete em macramê produzido pelas artesãs da Aramê chegou ao ateliê da Carnavália e revelou, por conta própria, uma construção que ninguém tinha desenhado antes. Ao corpete artesanal se soma uma saia de fitas aplicadas à mão e fios de miçangas transparentes e pretas, que dão profundidade e movimento a cada passo; cordas em malha preta fosca atravessam a peça em formas que remetem à estrutura do DNA – o mesmo ponto que organiza toda a coleção –, criando um contraste entre o brilho da miçanga e o opaco da corda. No desfile de Araruna, quem vestiu o Elba foi a influenciadora Iara Sanny. A peça é feita sob encomenda e pode ser desenvolvida em outras combinações de cor, mediante solicitação.



Se o Elba é o vestido mais teatral da coleção, a Chemise Parahyba é o seu manifesto mais discreto, e talvez o mais radical em termos de proposta. Em crepe branco, a peça recebe uma trama manual construída com fitas de crepe que cobrem integralmente mangas e costas, criando textura e volume; os punhos alongados estruturam um efeito balonê nas mangas, enquanto os bolsos frontais são feitos inteiramente em macramê. Nas costas, um bordado “Made in Parahyba”, executado à mão com fio trançado preto, funciona simultaneamente como assinatura de autoria e como declaração territorial. A chemise pode ser usada aberta, como sobreposição, ou fechada, como protagonista do look, o que garante à peça uma vida útil bem maior do que a de uma peça-conceito costuma ter.


Se o Elba e o Enlace mostram o que o macramê pode fazer numa peça de gala, a T-shirt Tunga mostra o que a mesma lógica faz numa peça de uso cotidiano, e é aqui que o projeto Mãos da Moda aparece com mais clareza como rede, e não como parceria isolada. A camiseta é uma colaboração entre Carnavália, Aramê e a Patropi, com fotografia de Jordy Ribeiro. Antes de virar estampa, a peça foi desenvolvida à mão pelas artesãs da Aramê, fotografada em estúdio e só depois transformada em print pelo designer Gustavo Braga, da Patropi, o mesmo caminho de “objeto que vira imagem que vira tecido” visto no tule estampado da coleção, aqui aplicado a uma peça pensada para durar no guarda-roupa, não só na passarela. É, à primeira vista, a peça mais simples da coleção; na prática, é a que mais mãos atravessou. A pré-venda está disponível pelo site e pelo WhatsApp da marca.

Vale registrar também os calçados da coleção, desenvolvidos em parceria com a marca paraibana Errige e igualmente marcados por intervenções das artesãs da Aramê, prova de que a lógica do “à mão como revolução”, como escreve Duda Carvalho no release, não ficou restrita ao vestuário.
Entre o Elba e o Enlace, entre a chemise e a camiseta, a Trama Delírio faz uma aposta relativamente simples de descrever e bastante difícil de executar: tratar o macramê como técnica de autoria plena, capaz de sustentar tanto uma peça de gala quanto uma peça de todo dia, sem que uma desvalorize a outra. Para uma marca nascida na Paraíba, encerrar o primeiro ciclo do Mãos da Moda em casa, em Araruna, com a plateia local vendo de perto o resultado de sete meses de trabalho das próprias artesãs, é tanto um fechamento de projeto quanto um argumento editorial.
A Carnavália é uma marca de moda autoral fundada pela designer e diretora criativa Duda Carvalho, na Paraíba. Peças da Trama Delírio estão disponíveis para pronta-entrega e sob encomenda pelo site da marca e pelo WhatsApp (83 999593297).