Quando se fala em moda paraibana, dificilmente a conversa deixa de passar por tipologias artesanais, como renda, macramê, bordado, crochê. Essas técnicas construíram, nos últimos anos, boa parte da identidade da moda produzida na Paraíba, pois aparecem nos principais desfiles, nas políticas de fomento, na cobertura de imprensa, e na forma como o próprio estado se apresenta para o resto do país. É uma associação consolidada por décadas de trabalho, e não à toa, as manifestações artesanais carregam história, sustento de famílias inteiras e reconhecimento que já ultrapassou fronteiras nacionais. Exatamente por essa associação ser tão sólida, tão bem-sucedida, que vale a pena olhar para ela com mais atenção e refletir sobre o que acaba deixando de fora.
Segundo o Programa de Artesanato Brasileiro, o artesanato consiste na transformação de matérias-primas, feita predominantemente à mão, que alia domínio técnico, criatividade e valor cultural, com uso apenas limitado de máquinas e ferramentas. É fato que toda peça de roupa carrega trabalho manual em algum grau, na costura, no corte ou na passadoria. Não é desse tipo de manualidade, presente em qualquer produção têxtil do mundo, que este texto trata. Trata das tipologias artesanais que, na Paraíba, tornaram-se quase sinônimo da própria palavra “moda”.
Na associação entre moda e artesanato, por si só, não há nada de problemático. O risco aparece quando ela deixa de ser uma das vertentes possíveis de fazer moda no estado e passa a funcionar como a régua que decide o que é, ou não, “verdadeiramente paraibano”.
O peso institucional por trás dessa associação ajuda a explicar o fenômeno. Os desfiles de moda mais notórios do estado neste ano nasceram dentro dessa estrutura: o Tramas Arretadas e o Campina Feito à Mão são exemplos, ambos com foco declarado no artesanal. Esse fato, em si, não deveria surpreender. O Tramas Arretadas integra o próprio Programa do Artesanato Paraibano, e é natural que um evento vinculado a essa política tenha o artesanato como eixo central. O Campina Feito à Mão, por sua vez, acontece dentro da programação d’O Maior São João do Mundo, em Campina Grande, o que também explica seu foco declarado nas tipologias mais tradicionais da nossa cultura. A existência desse tipo de desfile não é o problema. O que chama atenção é que praticamente todo evento de moda com apoio institucional consistente no estado segue essa mesma linha, e falta uma estrutura parecida, com o mesmo nível de investimento, voltada a outros formatos de criação.

Por que essa situação se sustenta? Uma pesquisa da professora doutora Gabriela Maroja com estilistas e consumidores de João Pessoa mostra que tanto o público quanto os próprios criadores locais tendem a confundir moda regional com artesanato, reduzindo o que se produz aqui a “simples produto têxtil” (rendas, crochês, bordados) em vez de reconhecê-lo como criação autoral. Nas entrevistas, repete-se um discurso de que a moda “de verdade”, a que vale a pena desejar e comprar, é a que aparece nas revistas, nas novelas, nas grandes marcas nacionais e a produção local, mesmo quando admirada, é tratada como categoria à parte, mais próxima do souvenir do que da moda propriamente dita. Essa desvalorização se relaciona a uma subordinação histórica entre o Nordeste e o eixo Sul/Sudeste do país, que reproduz na moda a mesma hierarquia presente na economia e na política. O poder público reforça essa lógica, mas não a inventou sozinho, o próprio imaginário local já aprendeu a só reconhecer como autenticamente paraibano aquilo que remete à tradição artesanal.
Dito isso, seria um erro transformar este texto numa crítica ao artesanato, e essa não é a intenção. Além de compor nossa cultura, ele também é uma parte importante da economia brasileira. Segundo o Sebrae, o setor movimenta entre R$50 e R$100 bilhões por ano, representando cerca de 3% do PIB, e emprega mais de 8 milhões de pessoas, a maioria mulheres, muitas sustentando sozinhas suas casas com esse trabalho.
Na Paraíba, a Renda Renascença, protegida por Indicação Geográfica, já fechou a passarela dos 25 anos do São Paulo Fashion Week e sustenta cerca de três mil rendeiras na região do Cariri, hoje reunidas em torno do Centro de Referência da Renda Renascença e do Artesanato, em Monteiro. Já o bordado labirinto, praticado principalmente por mulheres do Agreste paraibano, incluindo territórios quilombolas, tornou-se Patrimônio Cultural Imaterial do estado em 2021 e teve peças expostas em semanas de moda internacionais. O interesse nacional e internacional por esse tipo de produção não é acaso. O mundo está redescobrindo o valor do feito à mão, do slow fashion, da rastreabilidade. Portanto, é natural, e até estrategicamente inteligente, que a Paraíba capitalize um momento em que aquilo que sempre teve está em alta. O que está em questão é a posição de exclusividade que o artesanato acabou ocupando no cenário da moda paraibana, jamais o seu valor e sua importância.


A cultura não costuma se comportar como essência fixa a ser preservada intacta, funciona mais como narrativa que se escolhe repetir. O teórico Stuart Hall descreve como identidades culturais não são heranças com que se nasce, mas construções formadas e refeitas dentro da própria representação. Uma nação, ou uma região, não é apenas um lugar, é também um sistema que produz sentido sobre si mesmo e que pode contar sua história de mais de uma forma. Hall descreve ainda, o mecanismo da invenção da tradição: práticas que parecem antigas e imutáveis costumam ser, na verdade, construções relativamente recentes, repetidas até parecerem eternas. Isso não significa dizer que a renda renascença ou o bordado labirinto são invenções atuais, longe disso, sua história é real, antiga e documentada. Significa dizer que a ideia de que só eles podem representar “autenticamente” a Paraíba é, essa sim, uma narrativa mantida ativamente por política pública, por hábito, por nós – pesquisadores de moda, jornalistas, criadores – que seguimos contando a mesma história da mesma forma.
Essa combinação entre moda e artesanato tem valor cultural e econômico comprovado, e a discussão aqui não pede o fim dela. O que falta, ao lado dessa estrutura, é uma equivalente para outros formatos de fazer moda no estado. Falta espaço institucional (edital, divulgação, verba, cobertura de imprensa) para quem cria moda daqui sem necessariamente referenciar o artesanato, e mesmo assim produz algo tão legítimo desse território quanto criações artesanais. Um estilista que trabalha com alfaiataria conceitual, com experimentação de silhueta, com streetwear urbano, não é menos paraibano por isso; ele não desvaloriza a riqueza cultural do estado, soma a ela. Só que hoje esse estilista dificilmente encontra um palco à altura do que a estrutura estatal já oferece ao artesanato.
A potência criativa da Paraíba não cabe numa única estética. O mais interessante que o estado tem a oferecer para a moda brasileira talvez não seja uma técnica específica, e sim a prova de que uma identidade regional pode ser grande demais para caber numa caixinha só. Ampliar a forma como representamos a moda paraibana não é trair a renda renascença, o bordado labirinto ou qualquer outra tradição que está conquistando seu lugar. É alimentar um ambiente propício para que as várias expressões convivam e cresçam lado a lado, enriquecendo cada vez mais a cultura do nosso estado.