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Mãos da Moda leva macramê e labirinto para desfile com vista para a Pedra da Boca, em Araruna

Coleções da Carnavália e da Morada, resultado de sete meses de parceria com artesãs paraibanas, desfilaram diante de convidados, jornalistas e influenciadoras. Projeto da Nordestesse com patrocínio da Riachuelo já projeta Campina Grande como próxima edição.
17 de julho de 2026

Pedra da Boca, Araruna

Araruna, cidade de 150 anos encravada no Curimataú paraibano, ganhou nesta sexta um cenário à altura de seus atrativos naturais, o desfile de encerramento da primeira edição paraibana do Mãos da Moda aconteceu no Spazio da Pedra, pousada de onde se vê, ao fundo, a Pedra da Boca. Sob esse pano de fundo, as marcas Carnavália e Morada apresentaram as coleções desenvolvidas ao longo de sete meses em parceria com grupos artesanais da Paraíba.

A plateia reuniu artesãs da Aramê e do Quilombo Pedra D’Água, autoridades, amigos e familiares dos envolvidos no projeto, jornalistas e influenciadores paraibanos convidados pela Riachuelo, patrocinadora do Mãos da Moda através do Riachuelo Lab. O clima era de celebração, depois de meses de trabalho conjunto entre estilistas e artesãs, era a vez de Araruna ver de perto o resultado.

Entre os convidados estava Marianne Morimitsu, influenciadora paraibana convidada pela Riachuelo, para quem o evento foi o primeiro desfile da vida.

 “Toda menina que gosta de moda sonha em vivenciar isso um dia. Eu já esperava um espetáculo na passarela, mas o que mais me marcou foi o backstage, ver a quantidade de mãos envolvidas naquele projeto, o carinho no olhar de quem fez as peças e de quem fotografava”, contou. 

Para ela, a escolha da Paraíba como palco não foi acidental: “Esse desfile tinha que ser aqui, porque mostra muito da gente, o nosso povo, a nossa cultura, a nossa arte.”

Antes dos looks descerem a passarela, Daniela Falcão, fundadora da Nordestesse e idealizadora do projeto, explicou ao público reunido o que é o Mãos da Moda e por que Araruna foi escolhida para receber esse encontro. “Araruna tem a Pedra da Boca e todas as belezas naturais, e o fato de estar completando os 150 anos também interviu muito nessa nossa vontade de fazer o evento aqui”, disse. Segundo ela, o movimento nasceu da percepção de que “tanto a moda autoral nordestina quanto os saberes artesanais se fortalecem se estiverem juntos” e que as marcas nordestinas que têm feito sucesso em vitrines como o São Paulo Fashion Week são justamente as que carregam as manualidades e tipologias ancestrais da região.

Daniela também destacou o papel da Riachuelo, patrocinadora do projeto desde o início através do Riachuelo Lab, plataforma da marca dedicada a incentivar moda autoral e cultura brasileira, além do apoio do Governo do Estado, da Secretaria de Cultura e do PAP, responsável por identificar os grupos artesanais aptos a participar.

“Esse é o nosso objetivo com o Mãos da Moda: desafiar artesãos e estilistas a criarem juntos. O projeto remunera esses estilistas e esses artesãos, e eles são acompanhados durante todo o processo”, explicou.

A Morada, de Lu Azevedo, abriu o desfile com “Gira”, coleção construída com as labirinteiras do Quilombo Pedra D’Água, em Ingá. Em jeans, rami e linho, o bordado labirinto aparece ora em detalhes de mangas, calças e blazers, ora como protagonista de vestidos inteiramente bordados, ao lado de crochê e miçangas. Quatro looks homenagearam entidades femininas do candomblé e da umbanda, Maria Navalha, Rosa Caveira, Maria Padilha e Oxum.

Em seguida, foi a vez da Carnavalia, marca de Duda Carvalho apresentar a coleção “Trama Delírio”, desenvolvida com a Aramê, associação de cerca de 30 macramistas de Araruna. A coleção transforma o macramê tradicional em experimentação têxtil contemporânea – em alguns looks, o trabalho artesanal levou até 65 horas. Inspirada na obra do artista pernambucano Tunga, a coleção também levou o macramê para os calçados, criados em parceria com a marca paraibana Erregê. “As tranças, cordas, redes e nós do trabalho de Tunga serviram de guia para uma investigação sobre entrelaçamento, transformação e construção coletiva – temas que encontraram ressonância natural na prática do macramê desenvolvida pelas artesãs da Aramê”, contou Duda Carvalho.

Entre uma passada e outra na passarela montada com a Pedra da Boca ao fundo, discursaram também o prefeito de Araruna, Availdo Azevedo, e a primeira-dama da Paraíba, Camila Mariz. O prefeito lembrou que conhece o trabalho das macramistas locais “desde o distante ano de 2007, 2008” e destacou o valor de ver esse saber, antes desenvolvido de forma empírica, ganhar espaço em desfiles e projetos como o Mãos da Moda. Camila Mariz reforçou a importância do reconhecimento público ao trabalho artesanal, citando o Salão do Artesanato Paraibano como exemplo de política pública que deu certo.

“Isso é muito bom, mas se não existisse o artesão, se não existisse a sociedade que abraça, não funcionaria. O Salão do Artesanato Paraibano é hoje uma política pública que funciona. Por que funciona? Porque as pessoas abraçaram”, afirmou.

Pela Riachuelo, Patrícia Vieira falou sobre o que a marca vê no projeto. “Impulsionar a moda autoral tem tudo a ver com a nossa marca, que a gente diz que é incrivelmente Brasil. Poder mostrar um pouco mais desse Brasil tão enorme, que tem coisas tão lindas como esse lugar que eu não conhecia, e apresentar essa moda para todo mundo, é incrível”, disse. Ela adiantou que a marca já pensa nos próximos passos do projeto: “A gente quer repetir o que já fez, ampliar o próximo ciclo para outras regiões, mais do Nordeste, mais do Centro-Oeste, e continuar apresentando esse trabalho lindo para o Brasil inteiro.” Campina Grande já é cotada como uma das próximas paradas, com artesãos e estilistas locais em mobilização para uma futura edição.

Com a Bahia também contemplada nesta primeira edição, as coleções baianas do Mãos da Moda já haviam sido apresentadas no Dragão Fashion Brasil, em Fortaleza, o projeto criado pela Nordestesse fecha seu primeiro ciclo reafirmando que moda autoral e artesanato nordestino, quando caminham juntos, também sabem ocupar uma passarela montada em plena Pedra da Boca.

Vitória Sodré

Editora-chefe

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