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Campina feita à mão profissionaliza criadores paraibanos

Projeto em sua segunda edição estrutura artesãos como autores de moda durante o São João, abrindo questões sobre impacto econômico e replicabilidade.
10 de junho de 2026

Campina Grande

Campina Grande integrou em seu calendário cultural um projeto que funciona como laboratório de profissionalização. O Campina feita à mão nasceu da percepção de Juliana Cunha Lima, primeira-dama da cidade, de que havia talento abundante entre artesãos paraibanos, mas invisibilidade no mercado. Há três anos ela começou usando peças desses criadores durante o São João, e aquele pequeno gesto de visibilidade evoluiu para estrutura: a primeira edição do desfile aconteceu em 2025 e a segunda, em 10 de junho de 2026, consolidando o modelo.

Artesãos se inscrevem por edital; uma banca de seleção avalia o trabalho segundo critérios técnicos (qualidade, originalidade, identidade cultural, domínio da técnica, sustentabilidade) que pesam 70 pontos, e trajetória com potencial comercial com 30 pontos. Os selecionados participam de oficinas de capacitação, integram o desfile e vendem suas peças em uma Vila de Artesanato que funciona durante todo o período do São João. O investimento veio principalmente da Arte Produções, empresa responsável pela produção integral do São João de Campina Grande, que entrou por licitação, complementado pelo patrocínio da marca de linhas têxteis Linhas Correntes, que forneceu material e apoio financeiro direto aos artesãos.

Juliana vê o projeto como resposta a uma lacuna. “Eles tinham muito talento em relação às artes, aos trabalhos manuais, mas precisavam de uma visibilidade maior sobre o feito à mão”, relata. 

Foto: Divulgação

A conexão com o São João não é acidental: é no período junino que a economia da cidade se aquece, que turistas chegam em massa, que a atenção da mídia se concentra. 

“É uma forma de a gente dar uma visibilidade maior ao artesanato que acontece durante todo o ano, mas que durante o período de São João fica mais aquecido.” 

A estratégia é aproveitar esse pico de circulação para posicionar o que é feito à mão não como lembrancinha, mas como produção cultural e econômica da cidade.

Ary Rodrigues, diretor criativo do projeto, entrou por convite de Juliana com a tarefa de traduzir artesanato em moda autoral. O projeto, segundo ele, não é apenas apresentar peças bonitas, mas sim, criar um espetáculo que valha a pena o público sair de casa para ver, que fuja do tradicional, do comercial e daquilo que já se conhece. “A gente tentou quebrar um pouco isso, levando para a linguagem de moda, para o fashion mesmo”, explica. Seu objetivo maior é fazer peças que criem forma, mas com conceito, para que aquilo tenha propriedade de apresentação, de show. E, na raiz disso, há uma intenção política: usar essa estrutura de profissionalização para criar uma cultura de moda na Paraíba, não apenas exibir o que já existe.

A diferença entre artesanato e moda autoral, que o projeto busca marcar, está menos em técnica e mais em autonomia criativa. “Nem todo artesão é um criador, mas a ideia é a gente descobrir artesãos que tenham esse talento também”, diz Ary. O artesanato sempre esteve presente na moda, especialmente na alta costura, onde trabalho manual é exigência do sindicato. Mas o que Campina feita à mão busca é algo a mais: artesãos que dominem sua técnica tanto que consigam experimentar, criar variações e novas formas. A meta é sair da zona de conforto, do trabalho mecânico, para entrar em experimentação criativa que gere autonomia de domínio e mudança dentro da arte, permitindo que aquele trabalho se comercialize de maneira satisfatória.

O processo levou cinco meses entre reuniões, criação e execução. Ary montou um “QG” no Teatro Municipal onde a equipe se reunia diariamente com os artesãos selecionados. Havia tarefas de casa, feedback imediato, maquinário disponível, consultoria contínua. Alguns dos participantes nunca haviam trabalhado com vestuário, então o projeto precisava converter talento em lógica de moda. A equipe de atelier de Ary entrou como suporte estrutural para viabilizar e otimizar esse tempo relativamente curto.

A segunda edição também traçou diferenças com a primeira. A equipe formalizou curadoria, estabeleceu protocolos e integrou diferentes áreas. Wellington Jean e Ângelo Rafael completam a direção criativa. E o Campina Feito à Mão deixou de ser um projeto eventual, e se tornou uma estrutura que se repete e se sofistica a cada ciclo. Juliana confirma planos para outras edições: “Enquanto estivermos na gestão, o nosso intuito é fazer isso todos os anos durante o maior São João do mundo, para que realmente tenha essa visibilidade, e a cada ano a gente está aprimorando.”

Foto: Divulgação

Mariluce Azevedo Paulino trabalha com crochê desde os 9 anos. Este ano fez bodas de ouro: 50 anos de crochê. Domina crochê tradicional e crochê irlandês, técnica mais delicada que exige fios e agulhas finas. Soube do Campina feita à mão porque estava organizando cursos de capacitação com Juliana e se inscreveu. O processo de seleção ela descreve como “muito rígido”, mas se sentiu segura porque estava se capacitando constantemente. Levou cerca de um mês para preparar as duas peças para o desfile, tempo que a própria Mariluce avalia como “bem corrido” mas que validou o efeito das oficinas de capacitação.

Para a Vila do Artesanato, Mariluce levou cerca de 20 peças. Bolsas variavam de 180 a 250 reais, vendeu duas até a data da entrevista, faturando 400 reais, e ainda não cobriu as despesas iniciais. Mas sua avaliação do projeto é positiva: “O projeto entregou muito mais do que prometeu. Me ensinou muito, me deu uma direção.” Trabalhar com Ary, Jan e Angelo, conforme diz, mostrou capacidades que ela mesma duvidava possuir. “Os desafios foram maravilhosos, achei que não conseguia, mas com a paciência dos meninos me mostraram que posso muito.” Já está planejando a próxima edição: “Agora que já conheço como funciona, estou mais segura.”

O caso de Mariluce revela tanto o sucesso quanto a lacuna do modelo. Uma criadora com cinco décadas de domínio técnico, que participou de consultorias com Ronaldo Fraga e Sérgio Matos, que recebeu capacitação estruturada, que apresentou em desfile profissional e teve ponto de venda garantido durante o maior evento do calendário de Campina Grande, ainda assim converteu apenas 400 reais em vendas diretas. A próxima pergunta não é se o projeto funciona em termos de estrutura e profissionalismo, que ficou evidente. A próxima pergunta é qual é o fluxo econômico real que se estabelece entre visibilidade e retorno, e como Campina feita à mão evolui para garantir que a profissionalização seja também financeira.

Vitória Sodré

Editora-chefe

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